A torcida levou o Cruzeiro ao Maracanã. O time não foi

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Decepção é a palavra mais tranquila para definir a noite do Cruzeiro no Maracanã. A derrota por 2 a 1 para o Flamengo e a eliminação nas oitavas de final da Libertadores seriam perfeitamente compreensíveis diante de um adversário que é o atual campeão da América, tem um elenco milionário e reúne jogadores suficientes para montar praticamente duas equipes de alto nível. O problema está na maneira como tudo aconteceu. Depois do empate por 1 a 1 no Mineirão, o torcedor esperava ao menos a mesma disposição apresentada em Belo Horizonte. Recebeu outra coisa.

Nos primeiros 45 minutos, o Flamengo amassou. Foram inúmeras oportunidades, domínio territorial, posse e pressão diante de um Cruzeiro que praticamente não conseguiu jogar. Em uma competição internacional, numa noite de Maracanã lotado, valendo vaga nas quartas de final, a postura parecia de quem havia esquecido de ler o convite. O Flamengo entrou para decidir. O Cruzeiro entrou para ver o que acontecia. O 1 a 0 saiu barato diante do que os cariocas produziram.

Aí aparece a primeira grande responsabilidade de Artur Jorge. Fagner vinha de uma atuação excepcional contra o Corinthians e ganhou o banco. William recebeu a oportunidade e teve uma noite para esquecer. Gabriel Rojas voltou à lateral e continuou sem mostrar por que custou tanto ao clube. Em uma partida desse tamanho, experiência, identificação e personalidade deveriam pesar. Villalba, pela relação com a instituição, pela experiência e pelo comportamento dentro de campo, poderia ter sido uma alternativa mais adequada para uma noite em que coragem e personalidade não eram detalhes.

William foi envolvido, errou cruzamentos, sofreu na marcação e ainda levou um corte no lance do segundo gol do Flamengo. Foi quase uma devolução da obra de arte de Arroyo na semana passada. Samuel Lino havia ficado procurando a bola no Mineirão. No Maracanã, foi a vez do lateral cruzeirense procurar o adversário. O futebol, às vezes, tem um senso de humor que beira a crueldade.

Otávio é um ótimo goleiro e já salvou o Cruzeiro em diversas oportunidades. Ponto. Mas, quando precisa jogar com os pés, a história é outra. Ontem, errou praticamente todas as tentativas de saída curta e, nas bolas longas que tentou colocar no campo do adversário, todas foram para fora. Não passou segurança nos passes dentro da área e mostrou-se nervoso, talvez inseguro, justamente numa partida em que o Cruzeiro precisava de tranquilidade para sair da pressão do Flamengo. Nas mãos, Otávio é confiança. Nos pés, ainda é preocupação.

A defesa inteira sofreu. Jonathan Jesus esteve abaixo do que vinha apresentando. Fabrício Bruno não conseguiu organizar o setor. Gabriel Rojas praticamente não apareceu no ataque e teve dificuldades na marcação. O sistema defensivo parecia desmontado, enquanto o adversário encontrava espaços com uma facilidade que não deveria existir numa partida desse tamanho.

O primeiro gol saiu com Arrascaeta, depois de um primeiro tempo em que o Cruzeiro praticamente não existiu ofensivamente. Foi pouco diante do que o Flamengo produziu. A bola entrou, o Maracanã explodiu e o Cruzeiro foi para o intervalo com um placar que poderia ter sido muito mais pesado.

E aí vieram as grandes decepções da noite.

Gerson tinha uma história particular para resolver naquela noite. No primeiro turno do Campeonato Brasileiro, em sua primeira partida contra o Flamengo depois de deixar o clube carioca, foi chamado de traidor pela torcida rubro-negra. Agora, no segundo encontro com o ex-clube, no Maracanã e em uma decisão de Libertadores, tinha a oportunidade de responder em campo. Mas sentiu o peso da partida, ficou escondido em boa parte do jogo e não assumiu a responsabilidade que se esperava dele. É verdade que deu a assistência para o golaço de Romero, mas o lance pareceu quase um acontecimento isolado dentro de uma atuação muito abaixo do jogador que vinha sendo no Cruzeiro. Depois disso, pouco apareceu. Não comandou o meio-campo, não chamou o jogo para si e não mostrou a personalidade necessária para uma noite daquele tamanho. A assistência existiu. Gerson, como protagonista, quase não.

Matheus Pereira também não apareceu. E isso incomoda ainda mais porque ele é o cérebro, a engrenagem, o jogador que deveria assumir a bola quando a partida fica pesada. Eu não compro a tese de que ele desaparece em decisões. É um baita jogador e já provou isso muitas vezes. Mas, justamente por ser quem é, não dá para fazer uma atuação como a de hoje e passar despercebido.

Em uma decisão de Libertadores, não dá para ser coadjuvante quando o time precisa dos protagonistas.

Kaio Jorge lutou. Correu. Brigou. Tentou. Mas ficou isolado e desperdiçou a oportunidade que teve. Arroyo, desta vez, não repetiu a atuação do Mineirão. Wesley entrou e parecia cansado antes mesmo de começar a correr.

E o banco, mais uma vez, não conseguiu transformar a partida. É verdade que os reservas já foram decisivos em outras ocasiões. Contra o Corinthians, por exemplo, entraram muito bem e ajudaram diretamente na vitória. Mas estão longe de ser a solução do Cruzeiro. A solução estava em campo. E justamente quem deveria comandá-la não apareceu: Matheus Pereira e Gerson fizeram uma das partidas mais apagadas desde que chegaram ao clube.

O Cruzeiro voltou para o segundo tempo parecendo ter entendido, finalmente, que aquilo era uma decisão de Libertadores. Passou a jogar, pressionou e encontrou o empate com Romero, em um golaço de fora da área. A partir daí, algumas oportunidades apareceram, mas faltou capricho nas finalizações. Kaio Jorge teve a sua. Matheus Pereira também. O Cruzeiro cresceu e chegou a ameaçar a vantagem rubro-negra.

Romero, apesar do golaço, esteve abaixo no primeiro tempo. Errou passes, devolveu bolas e não conseguiu dar a dinâmica que normalmente oferece ao meio-campo. Não faltou entrega a Romero. Faltou futebol nos primeiros 45 minutos. E são coisas completamente diferentes.

Só que a reação durou pouco. O Flamengo voltou a encontrar espaço e Samuel Lino apareceu para fazer o segundo gol. William errou a marcação, levou um corte desconcertante e ficou no chão enquanto Lino finalizava para colocar novamente o Flamengo na frente. Foi mais um retrato de uma defesa que passou a noite oferecendo espaços demais.

Quatro mil torcedores saíram de Belo Horizonte, em Minas Gerais, e encararam mais de 400 quilômetros até o Rio de Janeiro para apoiar o Cruzeiro no Maracanã. Foram do coração de Minas ao litoral fluminense para acompanhar uma decisão de Libertadores. Outros milhões acompanharam de longe, em casa, no trabalho, onde quer que estivessem. E o que receberam em troca foi uma equipe que, durante boa parte da etapa inicial, parecia não compreender o tamanho da noite.

É aí que a palavra decepção ganha outro peso.

Depois da partida, Artur Jorge lamentou a atuação no primeiro tempo, mas faltou apontar com mais clareza as falhas da equipe, os erros da escalação e aquilo que permitiu ao Flamengo dominar completamente os primeiros 45 minutos.

Depois veio a declaração de Pedro Lourenço, dizendo que o Cruzeiro jogou de igual para igual com o Flamengo e que continuará torcendo pelo rival na competição.

Foi uma frase desnecessária para aquele momento.

A torcida acabara de assistir à eliminação, estava indignada com a atuação e ainda precisava ouvir que a equipe havia jogado de igual para igual. E a situação ganhou um ingrediente ainda mais curioso porque Leonardo Jardim, que havia saído do Cruzeiro dizendo que, no Brasil, só treinaria o clube celeste, acabou acertando com o Flamengo poucos meses depois. Para o torcedor cruzeirense, aquilo foi uma traição.

Se existe hora para escolher palavras, essa era uma delas. Nem toda declaração precisa ser feita no calor de uma eliminação, principalmente quando o torcedor ainda está tentando digerir uma atuação como aquela.

E aí está o alerta.

O Cruzeiro não pode carregar para os próximos compromissos os erros cometidos no Maracanã. Flamengo e Atlético aparecem novamente no caminho, dois adversários que exigirão uma equipe mais concentrada, competitiva e próxima daquela que vinha apresentando antes da noite de ontem.

A eliminação precisa servir de aprendizado, não de sentença. O Cruzeiro tem futebol para reagir, tem jogadores capazes de entregar muito mais e terá duas oportunidades importantes para mostrar que a noite do Maracanã foi um ponto fora da curva.

O sábado já traz o Flamengo novamente. Depois, vem o Atlético, pela Copa do Brasil, no Mineirão. É hora de virar a página, recuperar a confiança e lembrar que o Cruzeiro que chegou até aqui não foi construído com medo de enfrentar ninguém.

Mas virar a página não significa esquecer o que aconteceu no Maracanã. Uma camisa como a do Cruzeiro, cinco estrelas no peito e uma torcida que atravessou mais de 400 quilômetros para estar no estádio não mereciam uma atuação como aquela. E não eram apenas os quatro mil que estavam no Maracanã. O torcedor que ficou em Belo Horizonte, em Minas Gerais, em qualquer lugar do Brasil ou do mundo também merecia respeito. Todos pararam para acompanhar uma decisão de Libertadores e esperavam um time à altura daquela camisa.

A eliminação não foi obra do acaso, nem apenas consequência da força do Flamengo. Ela começou na escalação, ganhou forma no primeiro tempo e terminou nos pés de jogadores que não entregaram o futebol que uma decisão exigia.

O torcedor pode aceitar uma derrota. Pode aceitar uma eliminação diante do atual campeão da América. O que não deveria precisar aceitar é a sensação de que seu time não esteve à altura da camisa que vestia.

O Cruzeiro não perdeu apenas uma vaga. Perdeu a oportunidade de mostrar, em uma noite do tamanho do Maracanã, que seus jogadores entendiam o peso de cinco estrelas no peito. E essa responsabilidade é de quem escolheu e de quem entrou em campo.

A torcida já fez a parte dela. Agora é a vez dos jogadores e do treinador mostrarem que entenderam o tamanho do Cruzeiro que representam.

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