O Cruzeiro poupou titulares, esqueceu o futebol e ignorou milhões de torcedores

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Poupar titulares para uma decisão de Copa do Brasil é compreensível, tratar um jogo de Campeonato Brasileiro como se ele não valesse nada é outra história. O Cruzeiro foi a São Januário com uma equipe alternativa, pensando no Atlético e na partida de terça-feira, mas encontrou um Vasco pressionado pela luta contra o rebaixamento, disposto a aproveitar cada espaço oferecido e muito mais interessado em vencer. O resultado foi uma derrota por 3 a 1 para um adversário que vem de uma campanha ruim e que, mesmo longe de apresentar um grande futebol, conseguiu dominar o Cruzeiro e expor novamente os mesmos problemas que vêm se repetindo nas últimas partidas.

O resultado foi ainda mais indigesto porque o Cruzeiro começou a rodada na quinta colocação e tinha a possibilidade de subir para o quarto lugar, posição que poderia representar uma vantagem importante na corrida por uma vaga direta na próxima Libertadores. Não precisava escalar força máxima para competir, precisava apenas jogar com seriedade. Mas o que se viu foi uma equipe desligada, sem intensidade, sem criatividade e repetindo defeitos que já não podem ser tratados como acidentes de percurso.

Otávio foi exigido e fez boas defesas, mas voltou a expor um problema que já havia aparecido na terça-feira, contra o Atlético: o canto aberto. No gol de Tchê Tchê, deixou espaço e não conseguiu evitar a finalização, repetindo uma falha que já havia custado caro no clássico. Também errou algumas saídas com os pés e reposições com as mãos. Ainda assim, diante do que aconteceu à sua frente, foi muito mais solução do que problema.

William, como capitão, deveria ter sido justamente o jogador capaz de acordar os companheiros. Foi o contrário. Teve espaço pela direita, recebeu bolas em condições de cruzar e acumulou tentativas mal executadas, errando praticamente todas. Uma atuação péssima para qualquer jogador, mas ainda mais difícil de aceitar de quem carregava a braçadeira. Depois da partida, disse que o resultado não abalaria o grupo para o próximo compromisso. Tudo bem, uma derrota não pode mesmo desmoronar um time, mas tratar uma apresentação como essa com tamanha naturalidade é outra coisa. Milhões de torcedores ficaram abalados, não porque o Cruzeiro perdeu, mas pela maneira como perdeu, como se uma atuação medíocre diante de um adversário em crise fosse algo perfeitamente normal na história do clube. Não é. E quem usa a braçadeira deveria saber disso.

Na defesa, o problema começou antes mesmo de qualquer erro individual: faltou entrosamento. Jonathan Jesus e João Marcelo pareciam dois zagueiros apresentados minutos antes da partida, sem tempo para combinar cobertura, posicionamento ou sequer decidir quem atacaria a bola. A desorganização apareceu nos três gols e deixou o setor exposto durante boa parte da partida. Jonathan ainda carregou a noite para casa com uma atuação abaixo do que se espera dele, enquanto João Marcelo também não conseguiu oferecer a segurança necessária. Uma dupla que, ontem, parecia ter sido escalada por sorteio.

Gabriel Rojas chegou ao Cruzeiro cercado pela expectativa de ser uma alternativa ofensiva pela esquerda, com números que chamaram atenção pela participação no ataque e pela capacidade de servir os companheiros. Em campo, porém, a história tem sido outra: futebol burocrático, pouca iniciativa, pouca profundidade e uma produção ofensiva muito abaixo do esperado. Os cruzamentos que ajudaram a chamar atenção para seu futebol não aparecem, muito menos as assistências que fizeram parte de sua trajetória anterior. Talvez tenham ficado do outro lado da fronteira. Mais uma vez, não conseguiu mostrar por que foi contratado.

Zé Lucas parecia um remador tentando atravessar sozinho um rio contra a correnteza, enquanto os companheiros simplesmente observavam da margem. Correu, procurou a bola, tentou dar sequência às jogadas e ocupou espaços, mas não encontrou parceria. Era esforço individual tentando compensar um meio-campo que não funcionava coletivamente.

E aí aparece Matheus Henrique. O volante conseguiu participar negativamente dos dois primeiros gols. No primeiro, perdeu a disputa que abriu espaço para a finalização. No segundo, perdeu uma bola no meio-campo que originou o ataque do Vasco e terminou no fundo da rede. Um volante que perde tantas bolas e disputas no setor central transforma a proteção em vulnerabilidade. E fica difícil não questionar como Lucas Silva, identificado com a posição e com o próprio Cruzeiro, pode estar atrás dele na hierarquia. É uma escolha que, diante de uma atuação como essa, fica cada vez mais difícil de compreender.

Kaique Kenji continua oferecendo mais movimento do que resultado. Recebe a bola, tenta se livrar da marcação, parece perder o equilíbrio e, quando finalmente encontra uma saída, devolve para trás. É um salseiro que nunca chega ao prato principal. João Costa teve mais uma oportunidade e novamente não encontrou argumentos para justificar tantas chances. Um chute, pouca participação e nenhuma profundidade. Até agora, não apresentou futebol que explique por que continua recebendo espaço.

Neyser Villareal também não conseguiu mudar o panorama. E o problema é que já está na hora de aparecer mais no campo do que no departamento médico. Um jogador que passa tanto tempo fora por problemas físicos precisa, quando finalmente entra, mostrar alguma coisa capaz de justificar a expectativa criada em torno dele. Não aconteceu.

Arroyo e Gerson ficaram em Belo Horizonte, enquanto Lucho Rodríguez começou como titular, mas mostrou o desentrosamento de quem não vem tendo sequência. É difícil exigir sintonia de um jogador que passa mais tempo esperando uma oportunidade do que acumulando minutos em campo. Felipe Morais, por sua vez, mais uma vez entrou com uma disposição que deveria constranger quem recebe espaço constantemente. Parece até que, quanto menos atua, mais vontade demonstra quando pisa no gramado. E isso diz bastante sobre quem aproveita — ou desperdiça — as portas que o futebol abre.

O mais preocupante é que o roteiro não era novo. O Cruzeiro vem tendo dificuldade quando precisa assumir o protagonismo diante de adversários que estão em situação inferior na tabela. Pontos assim fazem falta no fim da temporada, e a história recente mostra isso. Na temporada passada, tropeços diante de equipes que terminaram brigando na parte de baixo custaram caro. Mais uma vez, o Cruzeiro deixou pelo caminho pontos que podem fazer falta na disputa pelas primeiras posições.

O torcedor faz a parte dele. Compra camisa, paga o sócio em dia, compra ingresso, assina televisão, pega estrada, avião, ônibus e gasta dinheiro para acompanhar o Cruzeiro. Tem gente que mora em outro estado e espera meses pela chance de ver o time de perto. Não se pedia uma vitória a qualquer custo, muito menos um futebol de titular. Pedia-se vontade, disposição e respeito por quem faz sacrifícios para estar ao lado do clube.

Na próxima terça-feira, o Cruzeiro vai ao campo do rival enfrentar o Atlético pelo segundo confronto das quartas de final da Copa do Brasil, em uma disputa sem vantagem para nenhum dos lados. A escalação será outra, mas a postura também precisa ser. O que os reservas fizeram diante do Vasco não pode contaminar quem terá a responsabilidade de representar o Cruzeiro no mata-mata.

Agora, não há espaço para desculpas. Clássico não escolhe momento, não respeita tabela e não aceita jogador distraído. O Cruzeiro vai carregar para o campo do rival o peso de sua história, a força de uma camisa acostumada a decisões e uma rivalidade que dispensa explicações. Depois do que aconteceu contra o Vasco, só resta saber quem estará à altura disso.

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