O Cruzeiro perdeu para o Santos por 2 a 1, mas o placar é quase um detalhe diante do que aconteceu. O que incomoda não é simplesmente sair derrotado, e sim assistir a uma equipe que parecia não compreender o tamanho do que estava em jogo, principalmente porque, depois das eliminações nas copas, o Campeonato Brasileiro passou a ser o único caminho até o fim da temporada. Cada rodada ganhou outro peso, cada ponto passou a valer ainda mais, e era justamente nesse momento que se esperava uma equipe disposta a encarar a disputa com a seriedade que a situação exigia. O torcedor não pode ser o único a levar o Cruzeiro a sério. O clube oferece estrutura, respaldo e todas as condições para que seus jogadores façam o trabalho da melhor maneira possível; em troca, o mínimo que se espera é identificação com aquilo que representam. E, neste momento, é justamente isso que parece faltar.
O que se viu foi um time que parecia estar apenas cumprindo o roteiro da partida, enquanto o Santos fazia o que precisava para vencer. Em vez de jogadores, espectadores; em vez de disputa, contemplação. O Santos jogava, o Cruzeiro assistia. O Santos encontrava espaços, o Cruzeiro abria caminho. O Santos crescia, o Cruzeiro parecia esperar que alguém resolvesse o problema. A Nação Azul é gigantesca, transforma o clube em parte da própria vida e carrega expectativas proporcionais ao que o Cruzeiro representa para milhões de pessoas. Por isso, certas atuações ultrapassam o limite de uma simples derrota. Há uma distância incômoda entre a paixão de quem acompanha, cobra, sofre e se entrega e a postura de quem recebe o privilégio de representar tudo isso dentro de campo.
E é justamente aí que entra Artur Jorge. O treinador reconheceu na entrevista coletiva aquilo que já era possível enxergar nos primeiros minutos: o Santos encontrou espaços demais e faltou combate no meio-campo. Eu também percebi. Não foi necessário esperar o intervalo para entender que havia um buraco diante da defesa, por onde o adversário entrava com uma facilidade absurda. Se o treinador enxergou o mesmo que todos estavam enxergando, por que demorou tanto para agir?
Romero deixou o campo por orientação médica, portanto não havia o que discutir sobre a saída. Mas havia o que fazer depois dela. Se o problema estava justamente na falta de combate, por que não reforçar o setor? Zé Lucas entrou quando o Santos já dominava a partida e o 2 a 0 até parecia barato diante do que acontecia em campo. Será quando Artur Jorge vai perceber a função que ele pode exercer? O garoto tem uma qualidade que fazia falta naquele cenário: marca, desarma, encurta espaço, disputa. Não precisa inventar uma função para ele. É justamente a função que estava sendo pedida pelo jogo.
E Lucas Silva? Por que não foi acionado antes? Finalmente entrou, mas depois de Artur Jorge insistir em Matheus Henrique, que vem acumulando atuações ruins, justamente em uma partida que pedia mais combate e segurança no meio-campo. Quando Lucas apareceu, a missão já era quase impossível: o Santos controlava o jogo, o Cruzeiro não demonstrava poder de reação e o placar tornava qualquer tentativa de mudança ainda mais complicada. Fica, então, uma pergunta incômoda: Lucas entrou porque era a solução que o jogo exigia ou apenas porque os questionamentos da torcida já haviam se tornado impossíveis de ignorar?
Também não existe a desculpa do calendário. Pelo contrário. O Cabuloso teve mais descanso do que praticamente qualquer grande equipe brasileira e não precisava poupar forças para outra competição. As copas já ficaram pelo caminho. Não havia decisão no meio da semana, não havia mata-mata esperando alguns dias depois, não havia motivo para administrar energia. Restou o Campeonato Brasileiro. Só ele. E justamente na competição que deveria concentrar toda a atenção, apareceu uma equipe que parecia estar tratando uma rodada como compromisso secundário.
Isso é difícil de aceitar porque a temporada começou com outra expectativa. Depois de voltar a disputar a parte de cima da tabela e de montar um elenco para brigar por coisas grandes, havia uma cobrança legítima por continuidade. O Cruzeiro não entrou em 2026 para participar. Entrou para competir. E essa cobrança não nasceu de uma expectativa exagerada criada pela torcida, mas do que o próprio time havia mostrado antes e da responsabilidade de sustentar o nível que o colocou novamente entre os protagonistas do campeonato.
A eliminação da Libertadores doeu. A queda na Copa do Brasil também. Faz parte do futebol perder mata-mata. O que não faz parte é transformar cada frustração em justificativa para uma atuação seguinte ainda pior. Depois de duas competições eliminatórias pelo caminho, o Brasileiro deixou de ser apenas mais uma frente. Passou a ser a última estrada disponível até o fim do ano.
Por isso, perder para o Santos não é o problema isoladamente. O problema é como se perdeu. Perder disputando, pressionando, errando porque tentou, chegando atrasado porque correu até onde dava, tudo isso é aceitável. O futebol não oferece garantia de vitória. O que ele exige é presença.
E presença foi justamente o que faltou de alguns. É possível contar nos dedos quem realmente se entregou à partida, quem correu atrás de uma bola perdida como se ela tivesse algum valor, quem tentou mudar o rumo de uma partida que estava escapando. Para os demais, parecia suficiente cumprir os 90 minutos.
Não é.
Quem veste essa camisa não está apenas ocupando uma posição no campo. Está recebendo uma responsabilidade que milhões de pessoas levam a sério. Gente que acompanha de perto, que viaja, que compra ingresso, que compra camisa, que organiza a vida em torno de um jogo, que passa a semana discutindo uma escalação e que sente uma derrota muito depois de o árbitro apitar o fim.
E talvez seja isso que torne tudo tão revoltante. Não se pede que ninguém ganhe sempre. Pede-se que ninguém trate como banal aquilo que para milhões está longe de ser.
O Cruzeiro ainda tem campeonato para disputar, objetivos para perseguir e tempo para mudar o rumo da temporada. Mas, depois de uma atuação como essa, não basta trocar uma peça, ajustar uma linha ou recuperar um jogador. É preciso recuperar algo muito mais básico: a consciência de que representar um clube dessa dimensão exige muito mais do que simplesmente entrar em campo.
Porque talento explica muita coisa no futebol. Tática explica outra parte. Cansaço, desfalques, fase ruim e até azar podem entrar na conta.
Descompromisso não.
Para Marco Antônio Astoni, meu amigo, meu irmão e o maior cruzeirense que conheço. Talvez você esteja mais triste do que toda a Nação Azul depois de uma derrota como essa, porque poucas pessoas vivem o Cruzeiro com a intensidade que você vive. Esta é uma pequena homenagem a quem carrega na memória tantos títulos, grandes times e momentos inesquecíveis desse clube. Que tudo isso fale mais alto do que a decepção de agora, porque um período ruim jamais será maior do que a história que você viu e ajudou a amar. Meu irmão, este desabafo é para você.