O Cruzeiro voltou a vencer. Triunfo por 3 a 1 sobre o Vitória. Bonito, né? Só tem um pequeno detalhe: o placar não conta absolutamente nada sobre o sofrimento que foi assistir a esse jogo.
O primeiro tempo foi mais uma daquelas experiências que deveriam vir acompanhadas de um aviso na embalagem: “consuma por sua própria conta e risco”. O Cruzeiro andava em campo. Não corria, não pressionava, não criava. Andava. E, quando os principais jogadores resolvem transformar uma partida de futebol em uma caminhada dominical, fica difícil esperar alguma coisa.
Gerson e Matheus Pereira, dois dos caras que deveriam chamar a responsabilidade, fizeram uma partida muito abaixo do que podem. Rojas, então, parece cada vez mais empenhado em provar que ainda não descobriu onde fica o futebol que o trouxe para o Cruzeiro. Não parte para cima, não vai à linha de fundo, não cruza direito. É quase uma presença cenográfica. Está em campo, mas, em determinados momentos, parece que esqueceram de avisar que a bola também participa da brincadeira.
E lá vinha o roteiro conhecido. Flamengo. Atlético. Vasco. Santos. Mais uma atuação melancólica para a coleção. A torcida presente no estádio, em Salvador, começou a cobrar. E os milhões de cruzeirenses espalhados pelo mundo também. Não era apenas pelo resultado. Era pela falta de identidade, de brio, de vontade. Depois de ser eliminado da Copa do Brasil e da Libertadores, o Cruzeiro ficou com o Campeonato Brasileiro como o grande objetivo da temporada. Mais especificamente, com a missão de buscar uma vaga no G4.
E agora, eliminado das duas Copas, o Cruzeiro está jogando uma vez por semana. Ou seja: não existe nem a desculpa de calendário apertado para justificar jogador andando em campo.
Mas parece que alguém ainda não contou isso para os jogadores.
Porque não dá para disputar um campeonato desse tamanho com a disposição de quem está esperando o ônibus.
Só que aí veio o intervalo.
E alguma coisa aconteceu naquele vestiário. Talvez tenham encontrado a chave da tomada. Talvez alguém tenha lembrado aos jogadores que existia uma segunda etapa. Talvez tenham descoberto que, no futebol, correr ajuda.
Foram necessários 38 segundos para o Cruzeiro empatar. Arroyo, convocado para a seleção equatoriana, apareceu como quem tinha recebido a informação de que a partida já tinha começado fazia uma hora e precisava correr atrás do prejuízo.
E correu.
Villalba entrou no lugar de Rojas, que, depois da atuação que acabara de fazer, ganhou o privilégio de assistir ao restante da partida de um lugar mais confortável. A substituição também ajudou a dar outra dinâmica ao Cruzeiro. E foi justamente Villalba quem apareceu para completar o cruzamento de Arroyo e marcar o segundo gol.
Arroyo foi o grande nome do jogo. Participou diretamente do segundo gol e continuou aparecendo em quase todas as ações perigosas do Cruzeiro. Foi praticamente um funcionário multitarefa em uma empresa na qual alguns colegas ainda estavam tentando localizar o próprio crachá.
Depois, veio a pressão do Vitória. Um time limitado, mas que descobriu uma estratégia muito eficiente: colocar a bola no alto e esperar alguma coisa acontecer.
E Otávio estava lá.
Mais uma vez seguro. Mais uma vez firme. Mais uma vez mostrando por que chegou à Seleção Brasileira. Enquanto o Vitória apostava no tradicional “joga na área e seja o que Deus quiser”, Otávio parecia dizer: “pode mandar”.
E o Cruzeiro, finalmente, descobriu que contra-ataque também existe.
No fim, Arroyo puxou mais um. Matheus Pereira recebeu, driblou, marcou um belo gol e, com aquele toque de crueldade que só o futebol proporciona, conseguiu transformar uma atuação que vinha sendo bastante ruim em uma noite estatisticamente respeitável.
É quase uma especialidade do futebol: você passa 90 minutos querendo arrancar os cabelos e, aos 47 do segundo tempo, aparece um gol bonito para fazer você pensar que talvez tenha exagerado.
Não exagerou.
O Cruzeiro venceu. E isso importa muito.
Mas também é preciso dizer: não precisava ser tão sofrido.
Não precisava ter sido assim contra o Vasco. Não precisava ter sido assim contra o Santos. Não precisava ter sido assim contra Flamengo e Atlético. Mesmo nos jogos mais difíceis, faltou futebol em momentos decisivos. Nos outros dois, faltou ainda mais.
O torcedor não pede que o Cruzeiro ganhe todas. Pede que o Cruzeiro pareça o Cruzeiro.
Que corra. Que lute. Que incomode. Que tenha personalidade. Que demonstre que entendeu o tamanho da camisa e o que está em disputa.
Porque ser eliminado de duas Copas e depois tratar o Brasileiro como se fosse apenas mais uma competição é um jeito bastante eficiente de transformar uma temporada promissora em uma sequência interminável de fins de semana de sofrimento.
E eu sofri.
Sofri muito.
Sofri sentado, em pé, reclamando, xingando, me decepcionando, me irritando, me emocionando. Em algum momento, provavelmente, até os vizinhos já sabiam que o Cruzeiro estava jogando.
Mas, pelo menos dessa vez, no fim eu chorei de emoção.
E não estava sozinho.
Ao meu lado estavam três dos seres que mais amo neste mundo: Flávia, minha Vidinha, e meus dois filhos de quatro patas, Mujica e Quincas Borba.
Eles não têm culpa nenhuma de eu escolher passar duas horas por semana entregando meu coração para um time que parece fazer questão de testá-lo.
A Flávia estava ali, acompanhando tudo de perto, vendo meu sofrimento, minha tristeza, minha decepção, minhas mudanças de humor e, depois, minha alegria. Ela é cruzeirense, conhece as regras do futebol e entende o jogo. O Cruzeiro também importa para ela, mas, acima de tudo, importa porque ela sabe o quanto ele me faz feliz e o significado que tem para mim. Mesmo assim, estava ali, ao meu lado, acompanhando de perto tudo o que eu estava vivendo. Como sempre esteve.
E Mujica e Quincas, do jeito deles, também estavam. Talvez sem entender por que aquele homem ficava tão nervoso olhando para uma televisão, mas entendendo perfeitamente que aquele era um momento importante para ele.
É isso que o Cruzeiro faz comigo.
Ele aparece uma vez por semana, agora que está disputando apenas o Brasileiro, e, durante duas horas, toma conta de tudo. Eu trabalho com o Cruzeiro, vivo o Cruzeiro, falo de Cruzeiro, escrevo sobre Cruzeiro. Mas o Cruzeiro não está comigo todos os dias da maneira que eles estão.
O Cruzeiro pode ser visto pela televisão ou no estádio.
Eles entram pela porta.
O Cruzeiro me dá duas horas de paixão.
Eles me dão a vida inteira.
E talvez seja por isso que, depois de tanta reclamação, tanto sofrimento e tanta raiva durante esse 3 a 1, eu tenha terminado o domingo agradecendo.
Porque o futebol pode me fazer sofrer.
Mas eu tive a sorte de sofrer ao lado da pessoa que faz qualquer sofrimento ficar menor.
À Flávia, o amor da minha vida, minha companheira e a pessoa que mais me dá carinho neste mundo: obrigado por estar ao meu lado até quando o Cruzeiro resolve testar a minha sanidade. Você me apoia, me acolhe e me faz querer ser uma pessoa melhor todos os dias.
Ao Mujica e ao Quincas Borba, meus filhos de quatro patas, obrigado por estarem sempre por perto, mesmo sem entender por que o pai de vocês fica tão maluco por causa de 11 homens correndo atrás de uma bola.
Hoje o Cruzeiro ganhou.
Mas, olhando para quem estava ao meu lado, percebi mais uma vez que a minha maior vitória não acontece no Mineirão, no Barradão, no Brasileiro ou em qualquer estádio do mundo. Ela está aqui, dentro de casa, comigo.
E essa, felizmente, não depende de gol aos 38 segundos, de contra-ataque no fim ou de Matheus Pereira acertar um drible.
Essa eu já ganhei.