Do fundo da tabela ao terror dos adversários

Compartilhe

Há poucos meses, o Cruzeiro olhava para a tabela do Campeonato Brasileiro e enxergava o abismo. Agora, os adversários olham para o Cruzeiro e começam a enxergar um problema. A transformação é dessas que desafiam até o roteiro mais otimista: o time que amargou a lanterna no início da competição, ainda sob o comando de Tite, agora está batendo à porta do G-4 e assustando quem aparece pelo caminho. Com Artur Jorge no comando, a Raposa virou uma espécie de assombração azul do campeonato.

E o domingo foi mais uma prova disso. Diante de quase 58 mil pessoas no Mineirão, em pleno Dia dos Pais e às 11 da manhã, o Cruzeiro venceu o Mirassol por 3 a 1 e chegou aos 33 pontos, ficando a apenas dois do Fluminense, que fecha o G-4. O horário poderia sugerir futebol de domingo com cara de almoço em família. O Cruzeiro, porém, resolveu transformar a festa em reunião de trabalho.

A vitória não veio sem sustos. O Cruzeiro saiu na frente, sofreu o empate ainda no primeiro tempo e precisou mostrar maturidade para não deixar o jogo escapar. Mas a equipe voltou do intervalo como quem havia esquecido alguma coisa no vestiário: o bom futebol. Recuperou o controle, voltou a pressionar e encontrou os espaços que precisava para transformar a vantagem em vitória.

Kaio Jorge apareceu novamente, mostrou que a fase de cobrança ficou para trás e marcou um golaço. Recebeu, deu um corte no marcador — um verdadeiro mini chapéu — e finalizou com categoria. Foi daqueles lances em que o atacante parece ter colocado a bola no modo replay antes mesmo de concluir a jogada. Mas quem roubou a cena mesmo foi um garoto que mal havia chegado e já resolveu pedir passagem. Wesley estreou com um golaço e fez aquilo que todo reforço sonha fazer: precisou de poucos minutos para transformar apresentação em cartão de visitas.

É o tipo de estreia que faz o torcedor imediatamente cometer aquele pecado clássico do futebol: criar expectativa demais depois de um jogo. Um golaço, uma arrancada, duas jogadas e pronto. Já tem gente querendo estátua. Calma. Mas que o menino começou bem, começou.

E é justamente aí que aparece um dos grandes méritos dessa reação do Cruzeiro. A diretoria percebeu que o time tinha carências, percebeu que algumas lesões machucaram o elenco e foi ao mercado. Gabriel Pec e Sinisterra, entre outros problemas físicos, reduziram opções e aumentaram a necessidade de reforços. A resposta foi buscar jogadores capazes de aumentar o repertório.

Wesley chegou e marcou. João Costa ganhou oportunidade e mostrou personalidade. Outros reforços já estão no radar e o elenco começa a ganhar alternativas para uma temporada que entrou naquela fase em que o calendário parece ter sido elaborado por alguém que não gosta de jogador de futebol.

O Cruzeiro agora não tem apenas um time titular. Começa a ter opções. E isso, em agosto, pode valer tanto quanto três pontos.

A ascensão no Brasileiro já seria suficiente para animar a torcida. Mas existe uma pequena questão chamada Libertadores esperando na quarta-feira.

E aí o papo muda de tamanho.

O Flamengo, atual campeão da competição, será o adversário no Mineirão. E se os quase 58 mil torcedores que foram ao estádio às 11 da manhã, no Dia dos Pais, já fizeram uma festa gigantesca, a expectativa é de uma casa ainda mais cheia para aquilo que pode ser o jogo mais importante do Cruzeiro na temporada até aqui.

Não é exagero dizer que a quarta-feira tem cara de decisão. O Cruzeiro chega embalado, fortalecido pela classificação na Copa do Brasil, pela sequência de vitórias no Brasileiro e por um mercado de reforços que começa a produzir resultados. O Flamengo chega com a camisa de atual campeão. O Mineirão deve chegar lotado.

É o tipo de noite em que a história gosta de aparecer.

O Cruzeiro passou de lanterna a candidato. De time que precisava olhar para baixo para time que começa a olhar para cima. De preocupação para expectativa. E, principalmente, de espectador da tabela para protagonista dela.

Agora falta descobrir se essa ascensão é apenas uma boa fase ou se o Cruzeiro realmente está preparando algo maior.

Na quarta-feira, diante do Flamengo, o fantasma azul terá sua primeira grande assombração continental.

E, dessa vez, ninguém vai querer apagar a luz.

Angel Drumond

Compartilhe

Este site usa cookies. Os necessários fazem a página funcionar. Os de medição contam quantas pessoas leem cada matéria, e os de publicidade permitem anúncios de redes parceiras. Você escolhe o que aceita, e pode mudar depois. Política de Privacidade · Política de Cookies.