Finalmente, a Data Fifa acabou e o Cruzeiro pôde voltar a fazer o que realmente interessa neste momento: jogar o Campeonato Brasileiro, a única competição que lhe resta até o fim do ano e o caminho para tentar colocar novamente o nome na próxima Copa Libertadores. E, para quem precisava de uma resposta depois de 17 dias sem entrar em campo, não poderia haver cenário muito melhor: vitória por 2 a 0 sobre um São Paulo que chegou ao Mineirão tentando descobrir onde havia escondido o futebol e encontrou pela frente um Cruzeiro que, mesmo sem produzir uma atuação brilhante durante boa parte do jogo, soube fazer exatamente o necessário para vencer.
O curioso é que, numa noite em que se esperava dos jogadores mais experientes a responsabilidade de conduzir a Raposa, foram dois garotos de 18 anos que tomaram conta da festa. Felipe Moraes e Zé Lucas não apenas participaram da vitória: foram os personagens que deram outra cara à equipe e mostraram que, às vezes, o futebol tem maneiras bastante irônicas de lembrar aos mais velhos que não existe lugar cativo quando alguém aparece disposto a ocupá-lo.
Felipe Moraes começou como titular e parecia ter decidido que aquela oportunidade não seria apenas mais uma entre tantas. O garoto participou da construção do primeiro gol, encontrou Matheus Pereira com um belo passe e deixou para o camisa 10 fazer o resto da obra, com uma assistência de letra para Kaio Jorge completar e abrir o placar. O lance teve a assinatura de quem sabe jogar, mas também de quem não se intimida diante da responsabilidade.
E talvez esteja aí uma das melhores notícias da noite. Enquanto alguns jogadores mais rodados passam partidas inteiras procurando uma justificativa para não aparecer, Felipe Moraes apareceu. Pediu a bola, participou, ajudou defensivamente e mostrou personalidade. Não precisou de discurso motivacional, entrevista ou campanha de marketing para avisar que pode ser útil. Bastaram 90 minutos de futebol.
Zé Lucas esperou apenas o intervalo. Entrou no lugar de Lucas Romero e, pouco depois, tratou de deixar seu cartão de visitas. Recuperou a bola, avançou, acionou Bruno Rodrigues e acompanhou a sequência da jogada. Bruno finalizou, Kaio Jorge acertou a trave e, no rebote, lá estava o garoto para completar de cabeça. Uma jogada construída com participação direta do garoto, que entrou para fazer exatamente aquilo que o meio-campo precisava naquele momento: marcar, disputar, fechar espaços e dar intensidade.
É quase engraçado. Zé Lucas chegou ao Cruzeiro depois de menos de um ano como profissional do Sport, ainda dando os primeiros passos no futebol de alto nível, e rapidamente encontrou espaço entre os principais jogadores do elenco. Convocado para as seleções brasileiras de base, carrega a expectativa de quem ainda está construindo a própria trajetória, mas, em campo, não pareceu disposto a pedir licença. Entrou para jogar e mostrou que pode ser muito mais do que uma simples alternativa.
Artur Jorge também merece crédito. O treinador, que em outros momentos foi criticado pelas teimosias e por algumas escolhas difíceis de compreender, acertou ao apostar em Felipe Moraes desde o início e ao lançar Zé Lucas no intervalo. Também manteve William na lateral direita, e o capitão fez uma partida segura. Gabriel Rojas continuou pela esquerda e teve atuação razoável, até ser substituído por Matías Viña, que fez uma estreia bastante positiva e mostrou que pode acrescentar ao setor.
Gerson também apareceu melhor do que vinha fazendo, enquanto Matheus Pereira voltou a oferecer aquilo que se espera de um jogador de sua qualidade. Foi decisivo no primeiro gol, participou da construção ofensiva e mostrou novamente que, quando encontra espaço para pensar, consegue fazer o jogo parecer mais simples. Kaio Jorge, além do gol, teve uma atuação mais participativa e viveu uma das melhores noites desde a retomada do futebol após a Copa.
Mas não adianta procurar muito. Os donos da noite foram Felipe Moraes e Zé Lucas.
Dois garotos de 18 anos, duas histórias diferentes, duas oportunidades aproveitadas e uma mensagem bastante clara para quem está acima deles na hierarquia: juventude não é sinônimo de falta de preparo. Às vezes, é justamente o contrário. O garoto entra sem carregar o peso de partidas anteriores, sem a obrigação de justificar salário, contratação ou currículo. Entra para jogar.
E eles jogaram.
O São Paulo, que já vinha de uma fase bastante complicada, ajudou. Chegou ao Mineirão pressionado e mostrou durante boa parte da partida por que atravessa um momento tão difícil. O Cruzeiro soube aproveitar. Não precisou massacrar, não precisou apresentar um futebol exuberante, não precisou transformar o Mineirão em palco de espetáculo. Foi eficiente, controlou os principais momentos e, desta vez, não deu ao adversário a oportunidade de transformar qualquer dificuldade em drama.
E o resultado tem um peso que vai muito além dos três pontos. O Cruzeiro chegou aos 48 e assumiu a quarta colocação do Campeonato Brasileiro, entrando no G4 justamente quando a competição começa a apertar de verdade.
É uma reviravolta e tanto para um time que passou quase dez rodadas frequentando a zona de rebaixamento no início da competição. Aquele Cruzeiro que parecia destinado a lutar para sair do fundo da tabela foi, aos poucos, subindo, corrigindo a rota e agora aparece entre os quatro primeiros. Não é pouca coisa.
E talvez a melhor imagem dessa transformação esteja justamente nos dois garotos que decidiram a noite.
Felipe Moraes, criado na Toca, e Zé Lucas, que chegou para conquistar espaço, não carregaram apenas a responsabilidade de substituir alguém. Eles entraram em campo e jogaram como se o lugar fosse deles.
Talvez seja essa a ironia que o futebol reservou ao Cruzeiro nesta retomada: depois de tanta discussão sobre quem deveria jogar, quem deveria sair e quem merecia mais oportunidades, foram dois meninos de 18 anos que simplesmente resolveram jogar.
E, quando os meninos jogam assim, fica difícil continuar chamando de promessa.
Eles já são realidade.