A estreia do Cruzeiro na temporada de 2026 terminou com derrota por 2 a 1 para o Pouso Alegre, mas o resultado ficou em segundo plano na análise do técnico Tite. Com um time formado majoritariamente por atletas do sub-20 e ainda sem contar com boa parte do elenco principal, o comandante celeste destacou o processo de formação, a importância das oportunidades e o desempenho apresentado pelos jovens no Mineirão.
Logo após a partida, Tite fez questão de enaltecer o apoio da torcida, mesmo diante do revés. Para o treinador, o ambiente criado nas arquibancadas foi fundamental para dar confiança aos garotos em início de caminhada no profissional.
“O primeiro fato importante é enaltecer o carinho do torcedor, que compareceu e trouxe para os garotos uma confiança. Chateado pelo resultado, mas também, em cima de uma circunstância toda, que o crescimento dos atletas, se dá jogando. Mesmo com 7 dias de trabalho. A formação, a maturidade, se dá dessa forma.”
Questionado sobre o planejamento para o próximo compromisso, Tite adotou cautela e evitou antecipar mudanças baseadas apenas no placar.
“Não sei. Vai ser da resposta tidas dos atletas que estão se apresentando. É inoportuno da minha parte, falar que vai voltar atletas por conta de resultados. Tenho que analisar o desempenho individual dos garotos e não fazer o seguinte ‘jogou mal, tira’, não se forma atleta assim. Dar eles a confiança. Calma ainda pra direcionar o time titular no próximo jogo.”
O treinador também ressaltou a importância de jogos como esse para o amadurecimento dos atletas da base, especialmente em um clube da grandeza do Cruzeiro.
“A maturidade não é na teoria, é na prática. Na vida e no futebol. É ouvir o barulho, as pressões, a expectativa alta, camisa pesada. E tem um respaldo de quem comanda, corrigir, enaltecer. Murilo entrou no lugar do Matheusinho com uma desenvoltura incrível. Da adversidade, se cria uma oportunidade.”
Sobre as dificuldades encontradas diante de uma defesa mais fechada, Tite apontou questões coletivas e também os desfalques no setor ofensivo.
“A coordenação de movimento dos jogadores que ficam no eixo central do campo, pra abastecer o 9, ou o lateral na amplitude, ou o externo aberto, ela chegar e esses jogadores terem essa possibilidade de criatividade. É uma situação geral, abrangente. No primeiro tempo tentei trazer o Lelis pro lado e o Japa pra dentro, pra ter superioridade no meio campo. Nós perdemos os atacantes centrais todos. Neiser machucou ontem, Fernando voltou agora e ainda fica um incógnita. Esses cuidados a gente tem que ter. As vezes a bola é a seguinte: o segundo gol, quando ela sai do pé do cara, eu pensei ‘caixa’. Dá vontade de fechar o olho. Efetividade também ganha jogo. Nós merecíamos com os jovens um resultado melhor pelo desempenho.”
Trabalhando com dois grupos neste início de temporada, Tite classificou o momento como desafiador, reforçando que não irá colocar em risco a condição física de atletas que retornam de lesão ou ainda buscam melhor forma:
“É desafiador. Temos que trabalhar quase que com dois períodos o tempo todo. Aí você faz um treino técnico e tático na distribuição de cargo que vai pro jogo. E no outro grupo que vai se preparando. Pra na frente ter um grupo unido. Acho que está programado para ter a conexão das duas equipes. Vai depender também da utilização de atletas que voltaram numa condição boa. Não vou arriscar a saúde dos atletas, também preventivamente pra não estourar o jogador.”
Mesmo com o sócio majoritário Pedro Lourenço indicando que o elenco está fechado, Tite deixou claro que o campo será determinante.
“Em primeiro plano, sim. Mas a grandeza do Cruzeiro vai ta sempre aberta a possibilidade de crescimento. Agora o campo vai mostrar, o campo fala, a oportunidade pros garotos. Dá uma continuidade, da nossa possibilidade, nós precisamos sim de resultado. Cria da Toca tem que sair da Toca, que é o campo. Eles tem um técnico pra corrigir e desenvolver.”
Entre os destaques individuais, o treinador elogiou o meia Kauã Prattes, autor do gol celeste, mas evitou rótulos precoces.
“Talvez seja oportunista falar isso com sete dias. Mas os Crias tem jogadores de qualidade. O Prattes é muito bom jogador, tem percepções pra iniciação, passe, condução, quando ele faz um cruzamento mais atrás. Conseguiu ir até o final do jogo. Eles tão em pleno desenvolvimento.”
Na reestreia à beira do campo após mais de um ano afastado do futebol, Tite falou com emoção sobre o retorno. “Eu vou repetir o que eu falei na palestra, na entrada do campo: é vida! É o que eu sei fazer. Tô em paz comigo mesmo, da cabeça, do joelho. Estar legal pra andar na beira do campo, desenvolver meu trabalho. Sou um cara realizado, mas tenho uma etapa toda pela frente. Tenho 64, mas acho que até o 70 dá legal.”
Por fim, Tite voltou a destacar o papel da torcida e do Mineirão no processo de formação dos jovens. Para ele, viver a pressão, a cobrança e até o sentimento ruim da derrota faz parte do amadurecimento.
“Ontem nós conversamos e o Lucas Silva conversou com a gente. Todos. Eles estavam ansiosos. É uma comissão técnica nova e daqui a pouco um dos atletas olhou pra mim e falou ‘eu nunca imaginei que meu técnico fosse tu, vestir a camisa do Cruzeiro, ir pro jogo, liguei pra minha família e ela ta vindo de ônibus ver o jogo’. Minha atenção era dar confiança, em algum momento as coisas iam fluir. Essas pressões não são teóricas, ela é de dentro do campo, é sentir o barulho, cobrança do técnico, é assim que se amadurece e com o sentimento ruim da derrota.”