FOTO: FABIO ANDRADE
Em Minas Gerais, o futebol feminino é todo delas. As quatro equipes profissionais que disputaram a última edição do Mineiro são coordenadas por mulheres. Babi, Keethlen Luiza e Nina são as coordenadoras da modalidade que foi proibida por décadas e só alcançou o profissionalismo no estado há dois anos.
A existência da modalidade profissional, apesar de uma obrigatoriedade, é uma conquista de todas as mulheres que jogaram mesmo quando foram proibidas, quando corriam risco de prisão, quando não tinham apoio nenhum, quando ninguém acreditava. Ser coordenado por mulheres é extremamente simbólico, mas passa longe de tornar o esporte um lugar fácil para ser mulher.
Quem acompanha a modalidade costuma brincar que não existe paz no futebol feminino. E muita dessa falta de paz vem justamente da ligação e da dependência de homens e do futebol masculino. Antes da obrigatoriedade, dirigentes de Cruzeiro e Atlético já haviam dado declarações contrárias ao futebol feminino. O América era o único que mantinha uma equipe ativa.
Com o início das competições, o que se viu foi uma série de erros no Galo, na maioria das vezes protagonizados por homens, mas que não só envolviam o futebol feminino como dele se utilizavam para limpar a própria barra. Não vou entrar nos méritos da contratação de Cuca e utilização das jogadoras para a postagem do dia da mulher, pois creio que a própria torcida já deu o recado nas redes sociais.
No Cruzeiro, a queda da equipe masculina aliada aos bastidores tumultuados culminou no fechamento da categoria de base e em atrasos salariais que chegaram a atingir a equipe feminina. Além disso, a própria coordenação deixa claro que se a equipe masculina estivesse em melhores condições, o feminino poderia receber mais investimentos.
A realidade é que em Minas o futebol feminino ainda engatinha, após ter sido carregado por décadas no útero da várzea. Se hoje ele ameaça dar os primeiros passos, contra tudo e contra todos, é pela força e pela insistência de mulheres que dentro e fora de campo lutam diariamente pela existência e por melhores condições de trabalho.
Ter mulheres à frente e em todas as posições do futebol reflete diretamente nas conquistas que estamos presenciando, e em cada nova luta que se apresenta o amor pelo futebol se sobressai mostrando que não poderíamos estar em lugar melhor mesmo que não tenhamos o melhor dos lugares. As mulheres que hoje fazem o futebol, profissional ou amador, são o reflexo que muitas meninas vão procurar quando se olharem no espelho. Ver atletas, treinadoras, coordenadoras, fisioterapeutas, analistas e demais integrantes da modalidade só deixa claro que é possível, que os espaços existem e estamos cada vez mais dispostas a ocupá-los. A luta de hoje é a preparação do caminho para que as próximas não tenham que lutar de forma tão dura.
As conquistas femininas das últimas décadas, puxadas pelos movimentos feministas, refletem diariamente no campo e nas condições de trabalho que encontramos. O caminho é longo, mas é sem volta. O dia de hoje é nosso e o futebol também!