Quatro gols sofridos, duas chances perdidas e nenhuma vergonha na cara

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O Cruzeiro teve a oportunidade de entrar no G4 do Campeonato Brasileiro, mas preferiu transformar a rodada em mais um capítulo de sua coleção de chances desperdiçadas. Perdeu por 4 a 2 para o Bragantino, caiu para fora do G5 e mostrou que, quando a tabela oferece a chance de dar um passo à frente, o time parece sentir saudade de caminhar para trás. Depois de sair da zona de rebaixamento e se aproximar das primeiras posições, a Raposa voltou a demonstrar que chegar perto de um objetivo é uma coisa; ter coragem para alcançá-lo é outra bem diferente.

O cenário, pelo menos, não oferecia grandes desculpas. O gramado estava bom, o estádio era pequeno e a Nação Azul compareceu em número que parecia rivalizar com o da torcida da casa. Não havia caldeirão hostil, campo esburacado ou qualquer dificuldade extraordinária. O Cruzeiro tinha condições de jogar futebol. Só faltou combinar isso com os jogadores.

O Bragantino, dono do pior ataque do campeonato, encontrou no Cruzeiro um parceiro disposto a colaborar. Os dois primeiros gols nasceram de escanteios praticamente iguais, com a bola no primeiro pau e a defesa celeste assistindo à repetição como quem revê uma cena que já conhece. No primeiro, houve desvio em jogadores cruzeirenses, que também enganou Otávio. Era uma jogada difícil para o goleiro, mas a defesa poderia ter evitado que a bola chegasse àquela situação. No segundo, o adversário repetiu a receita e encontrou novamente uma defesa sem resposta. Se o Bragantino precisava de inspiração para marcar, o Cruzeiro resolveu fornecer o roteiro.

O terceiro gol teve outra contribuição generosa. Gerson rifou a bola de forma desastrosa na área do Bragantino, entregando a posse a Volpi, que não perdeu tempo e acionou o contra-ataque. O adversário aproveitou a desorganização celeste e ampliou. Zé Lucas diminuiu, Matheus Henrique fez o segundo e, por alguns instantes, o Cruzeiro alimentou a esperança de buscar o empate. Mas seria exigir demais que uma equipe capaz de facilitar tanto a vida do adversário conseguisse, ao mesmo tempo, impedir o quarto gol. Ele veio, encerrou a reação e deixou claro que a Raposa não estava apenas perdendo uma partida: estava fazendo força para tornar a derrota inevitável.

Matheus Pereira, o camisa 10, teve duas oportunidades claras e desperdiçou ambas, chegando a furar a bola de frente para o gol. Em uma noite na qual o time precisava de alguém capaz de fazer a diferença, o principal jogador de criação decidiu colaborar com a coleção de chances perdidas. Não se espera que ele resolva tudo sozinho, mas também não é absurdo esperar que aproveite ao menos uma oportunidade daquelas. O Cruzeiro já tinha problemas suficientes; não precisava que o próprio camisa 10 ajudasse a aumentar a conta.

Gerson também merece uma cobrança pesada. Desde maio, seu futebol vem ficando muito distante do que se esperava de uma contratação desse porte. No primeiro semestre, teve atuações razoáveis, mas nunca chegou a justificar plenamente o investimento. Agora, além da pouca intensidade, ainda aparece diretamente ligado a um gol adversário. O volante corre o risco de se tornar um dos maiores exemplos de como uma contratação cercada de expectativa pode virar uma decepção cara. O Cruzeiro investiu para ganhar qualidade e, em várias partidas, parece ter comprado uma dúvida de luxo.

A defesa, que vinha apresentando sinais de melhora nas bolas aéreas, voltou a oferecer motivos para preocupação. Sofrer quatro gols de um adversário com tantas dificuldades ofensivas não é um detalhe estatístico que se resolve com uma frase pronta na entrevista. É um problema de organização, concentração e preparação. Os dois primeiros gols mostraram que o Cruzeiro não conseguiu corrigir nem mesmo uma jogada que o adversário repetiu diante de seus olhos. O time não precisava de um tratado tático para perceber o que estava acontecendo. Bastava defender o escanteio seguinte.

Artur Jorge não pode assistir a tudo isso como se a responsabilidade terminasse nos jogadores que erraram. O time voltou a apresentar problemas de organização, falhou em jogadas previsíveis e não conseguiu controlar uma partida que oferecia a possibilidade de entrar no G4. Cabe ao treinador explicar o que está sendo feito para corrigir erros tão básicos e por que a equipe continua se comportando dessa maneira quando a pressão aumenta. Treinar, preparar, escalar e cobrar fazem parte do trabalho. Se o resultado é uma defesa que não aprende com o primeiro escanteio e um time que se perde quando precisa reagir, não basta apontar para o gramado e esperar a próxima rodada.

O Cruzeiro passou meses construindo uma recuperação importante, saiu da zona de rebaixamento e chegou a brigar pelas primeiras posições. Agora, com as eliminações na Libertadores e na Copa do Brasil, o Campeonato Brasileiro é a única competição que resta. A vaga na próxima Libertadores virou o objetivo da temporada, mas a campanha exige mais do que boas sequências intercaladas por tropeços inexplicáveis. A recuperação merece reconhecimento, mas não pode servir de desculpa para tudo o que veio depois.

O Cruzeiro trata o G4 como artigo de luxo: chega perto, olha a vitrine, alimenta o sonho, mas não consegue nem chegar perto de levar para casa. Em Bragança Paulista, sofreu quatro gols, desperdiçou oportunidades claras e ajudou o dono do pior ataque do campeonato a fazer a festa. Para quem pretende terminar a temporada entre os melhores, está na hora de parar de admirar o objetivo de longe e começar a jogar como quem realmente quer conquistá-lo.

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